Viagem no tempo, década de 90, Chicago, entretenimento americano, compositor, roteirista, produtor, grupo de mídia
— Deus sabe o quanto me arrependo de ter dado à luz a vocês! Deus sabe!
A voz rouca e naturalmente ritmada da mulher rasgou impiedosamente o sono tranquilo de Alexandre. Ele suspirou, sentando-se resignado, e lentamente puxou um suéter da beirada da cama para vestir.
Já fazia mais de dez dias desde que atravessara para essa nova vida. Adaptar-se ou não, restava-lhe apenas suportar.
Claro, ele não se chamava mais Songya, tampouco era chinês. Agora, atendia por Alexandre Song, um garoto de quinze anos cujos pais biológicos haviam morrido num acidente de carro, passando a viver com a tia Susana em Chicago.
— Maldição, só dezessete anos! Com dezessete já aprendeu a agir feito uma vadia e passar a noite fora! Maldição!
As paredes quase não isolavam som algum. O palavreado rude explodia do andar de baixo direto em seus ouvidos — tia Susana estava “educando” a filha de dezessete anos, sua prima Connie.
“Filha legítima”, Alexandre pensou, resignado.
Comparados aos chineses, os afro-americanos expressavam sentimentos de forma mais “intensa” e “desenfreada”; chamar a filha de vadia e xingar até a mãe era só rotina para a tia Susana.
— Sim, sim! Falando em vadia, não sei quem foi que com dezessete anos já tinha dois filhos!
Anos de experiência tinham tornado Connie resistente às ofensas, retrucando na hora sem demonstrar fraqueza. Tia Susana dera à luz o filho mais velho, Tony, aos dezesseis, e no ano seguinte, Connie. Depois disso, o homem responsável desapareceu sem deixar rastros...
— Droga!
Tocada no ponto fraco,